Um dos aspectos mais trágicos da história do Estado Novo é o medo da liberdade e a perseguição feroz e sistemática movida a quantos ousaram lutar por ela. A prisão era, naturalmente, o elo final da brutal cadeia de mecanismos do aparelho repressivo da ditadura. Prender os opositores é ao mesmo tempo um acto de prepotência e uma clamorosa confissão de fraqueza. Por isso o confronto entre a vítima e o carrasco é o encontro fatal entre a fraqueza dos fortes e a força dos fracos. A desproporção desse encontro era agravada pelo silêncio que o poder impunha e cinicamente manipulava. Aprendiz de Maquiavel, Salazar proclamava que “em política o que parece é”. Na construção da imagem que de si e do seu regime tentou impor, a PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (1933 - 1945), mais tarde PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado (1945 - 1969) e finalmente DGS – Direcção Geral de Segurança (1969 - 1974), eram vulgares instituições ao serviço da ordem e do bem comum, justificadas pela tarefa desagradável mas necessária de usar da violência e do medo contra os defensores da Democracia, concebida como “balbúrdia sanguinolenta”. A eficácia desta política do silêncio e da invisibilidade não terminou com a liquidação da ditadura em 25 de Abril de 1974. “Impensado” enquanto presente, durante os 48 anos da sua real e concreta existência, o fascismo passou a “impensável” enquanto passado, para um povo com uma proverbial dificuldade em inscrever na sua história os episódios mais sombrios. O FASCISMO NUNCA EXISTIU. A provocante e paradoxal afirmação de Eduardo Lourenço não é uma libertadora miragem, mas uma acabrunhante e crua realidade. Denunciam-na as vozes silenciadas dos que lhe conheceram a sua face mais repulsiva nas Prisões Políticas da Cadeia do Aljube (1933/5/6 - 1966), do Forte de Peniche (1934 - 1974), da Colónia Penal de Cabo Verde, no Tarrafal, denominado pelos próprios Presos Políticos como “Campo da Morte Lenta” (1936 - 1954) e dos Redutos Norte e Sul do Forte de Caxias (1936/7 – 1974). No périplo que realizou por esses lugares, hoje desfigurados e transfigurados, Pedro Medeiros, mais do que um encontro com a história, propõe-nos um fascinante e perturbante encontro connosco próprios. No limite todos fomos vítimas ou carrascos. Por vezes, quem sabe, talvez as duas coisas, também. Encarar o traumatismo, convertendo-o em recordação fecundante, foi o sonho do fotógrafo. Sonhá-lo a sério significa não ser o único sonhador. Revisitar os lugares da tragédia, mas também da dignidade, da solidariedade e do inconformismo, é a nossa forma de reviver o passado, não como efeméride, mas como memória activa. A colaboração e apoio do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra é uma garantia de rigor científico e empenhamento cívico que assumimos desde já como marca deste projecto. Maria Manuela Cruzeiro
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