Num tempo de globalização mundial (económica, política, religiosa e multicultural) como aquele que vivemos, tendencialmente unidimensional, com epifenómenos emergentes e divergentes, derivados desta nova situação (como as reacções nacionalistas, os fundamentalismos religiosos, o alegado fim das utopias e das “ideologias” e os neo-conservadorismos), é óbvio que a atenção dos cidadãos se volte para os principais protagonistas internacionais desta constelação mundial, na procura de “sinais” do futuro e do seu destino, pois o “efeito dominó” de importantes decisões das principais potências mundiais é hoje não apenas uma estratégia política mas uma inevitável realidade (não apenas para as potências decisoras mas para todas as nações). Se, por exemplo, uma marcha gay é proibida e reprimida na Turquia (como foi há dias), a sua mediatização quase imediata convoca-nos—seja em Nova Iorque, seja em Bragança ou em Serpa—a manifestar a nossa opinião, ainda que apenas o façamos em consciência. O que pretendo dizer é que o planeta está hoje “em rede” e que, dificilmente, o que é controverso passa à margem da opinião do cidadão comum (se não é mesmo sua vitima indirecta e inocente!). As relações entre as nações e /ou entre os Estados nacionais está, pois, hoje, mais do que nunca no centro das nossas vidas particulares, por mais idiossincráticas que sejam. Mas esta realidade foi (e ainda é) um processo em construção que se começou a esboçar com o cosmopolitismo da Ilustração setecentista, que se confrontou, em tensão dialética, nos séculos seguintes (XIX e XX) não apenas com os nacionalismos e os federalismos, mas com dois modelos económicos e políticos opostos (o capitalismo liberal e o socialismo) cujo desenlace terá o seu termo simbólico com a queda do desmoronamento do bloco soviético em 1989. Desde então, o neo-liberalismo tende a globalizar-se e a mundializar-se não apenas do ponto de vista económico, mas também no plano supra-estrutural (política, religião, cultura, ideologias, etc.); e aos EUA cabe, sem dúvida, o principal protagonismo nesta mudança paradigmática e mundividencial. Parece-me, pois, sobejamente pertinente, revisitarmos as relações multisseculares--e quase sempre amigáveis--que tivemos com este país desde o século XVIII ao século XX. Ao fazê-lo, ficaremos com uma consciência compreensiva mais aguda e profunda do que nos une e nos separa e das expectativas que é razoável esperar dessas relações.
Norberto Ferreira da Cunha
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