Durante a Primeira República, António Sérgio (1883-1969) empenhou-se activamente numa campanha em favor da europeização e modernização de Portugal. Na base desse seu projecto estavam ideias neo-iluministas centradas nas noções de autonomia da pessoa, cidadania e democracia, entendida esta numa base de participação activa de cada um de nós, num esforço de ascenção à beleza espiritual e à objectividade. A emancipação de cada um de nós e a reforma da sociedade resultariam de uma 'revolução construtiva' e nesse processo o papel da Escola era tido como central, pois, a partir da infância, aí se podiam constituir concreta e experiencialmente os valores do trabalho e da cidadania, do self-government. Na década de 1910, Sérgio e a sua esposa Luísa Sérgio, foram aprender os métodos da Escola Nova no Institut Jean Jacques Rousseau, em Genebra e aí perceberam a profunda influência que o pensamento do filósofo e pedagogo norte americano John Dewey (1859-1952) exercia entre os pedagogos desse notável movimento educativo. As concepções educativas de Dewey, centradas no aprender fazendo e na relação entre escola, sociedade e os ideais de democracia participativa, constituiam simultaneamente uma crítica aos métodos pedagógicos correntes e aos vícios e desigualdades sociais, que eram reconhecidos por todos aqueles com simpatias por ideais socialistas (ou mesmo liberais) de inspiração ética. Mas o acordo com muito daquilo que Dewey escreveu sobre educação não obrigava necessariamente a uma inscrição ou adesão aos fundamentos do pragmatismo norte-americano, cuja veia anti-aristocrática era inclusivé pretexto de críticas vindas de muita da intelligentsia europeia da época. No entanto, Sérgio não seguiu essa via, a de rejeição dos fundamentos filosóficos do pragmatismo de Dewey. De facto, essa inspiração do filósofo pragmatista norte-americano manifesta-se em alguns escritos de Sérgio imediatamente posteriores à sua estadia em Genebra e a nossa conferência tem por objecto analisar essa inspiração. Para tanto mostraremos, em primeiro lugar, como a formação filosófica inicial de António Sérgio, muito ligada a autores como Kant, Fichte e filósofos franceses mais recentes como Lachelier ou Alfred Fouillée, lhe permitiam receber o ideário filosófico deweyeano de um modo empático. Mostraremos depois quais as ressonâncias deweyeanas explícitas em textos de Sérgio, e como algumas delas podem ser entendidas como nucleares para a reconstituição do pensamento filosófico sergiano - caso da centralidade das noções de actividade, do melhorismo e do experiencialismo que Sérgio adoptou. Mostraremos também como os EUA eram tidos como um paradigma de modernidade, dado o sucesso e a singularidade da sua economia, muito ligada a uma superior organização, onde ciência e tecnologia tinham importante papel, apesar das profundas contradições do seu sistema.
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