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Conferência
de Bernardino Machado realizada no Ateneu Comercial de Lisboa
a 31 de Outubro de 1903.
Formas de governo
Nada pior do que a ignorância em que os membros duma
nação estejam, dos seus direitos e dos seus
deveres. Nada mais necessário do que formar a opinião
para que a opinião governe. Eis o alto intuito da educação
cívica. Em obediência a esse intuito, é
que determinou o tema para a inauguração da
série de conferências promovidas este ano pelo
Ateneu Comercial de Lisboa, escolhendo entre todas as questões
que podem interessar a esse tema, a que lhe pareceu de mais
actualidade – a das formas de governo.
Nada fala como falaria num comício eleitoral, na praça
pública. Falará didacticamente, permitam-lhe
o termo, como um professor, com imparcialidade, e, não
dirá, sem paixão, mas com a paixão da
verdade, da justiça e do patriotismo, como, ainda não
há muito, o grande historiador Mommsen, que, fazendo
a crítica do governo da sua nação, não
duvidou opor à condenação fulminada pelo
imperador contra o partido socialista o elogio do mesmo partido
e do seu chefe, Bebel.
Uma lei sobreleva a todas na história da humanidade:
nenhuma instituição vive, se sustenta e radica
senão pelo seu amor à liberdade. A história
da humanidade não é senão a história
da liberdade, que mais ainda do que a memória dos heróis
que a tornaram vitoriosa, consagra sobretudo a dos seus mártires
e das suas vítimas.
Veja-se o mapa das nações. Quais são
as nações em que as instituições
estão mais inabaláveis? São as nações
que se têm consubstanciado com a liberdade: os Estados
Unidos na América do Norte, e a Suíça
na Europa. Porque é que a Inglaterra é ainda
um colosso monárquico? É, porque dentro dela
vão cabendo todas as liberdades, como têm o Canadá,
o Cabo. Dentro do império britânico cabe até
a república dos Estados Unidos da Austrália.
A Áustria conta com a lealismo monárquico dos
povos, porque dentro da monarquia a Hungria vai conquistando
todos os direitos de autonomia – até o de possuir
um exército próprio, ela reivindica actualmente
–, e a Boémia espera conseguir, como a Hungria,
a sua autonomia parlamentar. Do mesmo modo, na Escandinávia,
onde cada Estado vai sob a monarquia pugnando pela sua independência
até haver já conseguido cada um a sua independência
militar, e pretender mesmo agora uma representação
consular e diplomática própria. Ao mesmo tempo,
na Alemanha, apesar do génio superior do imperador,
a centralização militar vai levantando em ondas
o partido republicano socialista. Quais são as nações
que se derruem e se esfacelam? São as que se tornaram
incompatíveis com a liberdade.
Esta lei aplica-se rigorosamente até mesmo às
nações republicanas. Aí está a
França. As instituições republicanas
sofreram o assalto de todas [as] reacções conjuradas
no nacionalismo, quando, afrontando os direitos do proletariado,
mandavam acutilar os manifestantes do primeiro de Maio. Como
se têm salvado? Pelo programa socialista liberal de
Waldeck Rousseau, que está sendo rigorosamente aplicado
pelo ministério Combes.
É que a nação não é só
o Estado. Há muitas repúblicas a implantar,
além da república no Estado. Por isso, quando
se acusa o nosso povo de indiferente, é-se injusto
para com ele, porque ele está lutando por outros direitos
tão sagrados como os da representação
parlamentar, a começar nos direitos de existência.
Desafoguem-no, dêem-lhe liberdade, e ele irá
intervindo cada vez mais directamente nos negócios
públicos.
Por isso também tantas vezes desculpa os homens que
se ligam a partidos e instituições condenáveis,
na obsessão em que estão de pugnar pelos direitos
e interesses da sua corporação, da sua localidade,
da sua classe.
A lei de que só vivem instituições liberais,
verifica-se na nossa história contemporânea.
De 1852 a 1885, tivemos um período de liberdade e de
paz. Foi um período de ascensão liberal. Aboliu-se
a pena de morte, isto é, proclamou-se pela lei a liberdade
de viver. E proclamou-se este direito em toda a sua elevação,
dando a todos, até aos indígenas das nossas
colónias, onde se acabou com a escravatura, o direito
de viver espiritualmente, como uma personalidade moral. Ampliou-se
a liberdade religiosa, tornando efectiva a liberdade de crenças
pela decretação do registo civil. Ampliou-se
a liberdade económica pela extinção dos
morgados, pela abolição dos monopólios
e pela criação legal das associações
de socorros mútuos e cooperativas. Ampliaram-se as
liberdades políticas pelo alargamento do sufrágio
e pela representação das minorias. Descentralizaram-se
os municípios, deram-se as máximas franquias
aos distritos, e até na constituição
se implantou o princípio liberal da eleição
parcial da câmara dos pares. Nesse período que
começou, ouvindo-se a voz do grande tribuno José
Estevão, parece que ressoaram até final os acentos
do seu verbo eloquente.
Foi isento de erros, esse período? Não foi.
Mas muito se deve absolver a esses grandes liberais, porque
a sua culpa esteve principalmente em acreditarem em excesso
nas forças individuais. Inspirando-se no liberalismo
inglês, eram liberais até ao individualismo.
Daí os erros económicos que cometeram, abraçando
ilusoriamente pelo prestígio da palavra o livre cambismo,
que era a luta do nosso produtor, ainda fraco, sem instrução,
sem bem estar, contra o produtor estrangeiro, principalmente
inglês, já vigorosamente apercebido para essa
luta. E foram tão tolerantes, que muitas vezes a sua
tolerância se converteu em relaxação.
Esse período fecha com a morte de Sampaio, Braamcamp
e Fontes. Já nos seus últimos tempos, como que
se anunciava uma reacção; e é lástima
que, tendo começado pela abolição da
pena de morte, acabasse pelo restabelecimento dela para os
crimes militares. Por isso é no fim deste período
que entra a formar-se o partido republicano.
De 1886 até hoje, sopra um vento imperialista. A inspiração,
em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista.
O partido progressista faz a centralização dos
serviços materiais. Segue-se o partido regenerador
no poder, e faz a centralização dos serviços
espirituais na instrução, e, depois, dissolve
as associações, rasga as regalias municipais,
quase extingue os distritos, acaba com a representação
das minorias, legisla ditatorialmente e faz até mesmo
ditadura constitucional. E, por fim, para que toda esta centralização
não suscite uma revolta violenta, faz a lei sobre o
anarquismo, que é uma ameaça suspensa sobre
todos os liberais.
A consequência de tudo isto foi o engrandecimento do
poder real, que, contra a constituição, se proclamava?
Não. Se o partido republicano propriamente se não
desenvolveu, a ideia republicana alastrou-se por toda a parte.
A consequência foi a dissolução dos partidos
e a anarquia da nação.
A prova da dissolução dos partidos está,
não é preciso mais, em que eles fizeram como
os exércitos em derrota que fuzilam os seus generais:
exautoraram os ilustres caudilhos que tinham sido os principais
fautores da centralização – o partido
progressista, os srs. Mariano de Carvalho e Emídio
Navarro; o partido regenerador, os srs. João Franco
e João Arroio.
A anarquia da nação demonstra-se, dentro dela,
pelo desencadeamento das forças dissolventes do caciquismo,
da plutocracia e agiotagem e do clericalismo; e, fora, as
mesmas consequências dolorosas se seguiram a uma e outra
ditadura progressista e regeneradora. Após a progressista,
o ultimatum, a bancarrota com as negociações
para o primeiro convénio, e a invasão congreganista
sobressaltando os ânimos com o caso da irmã Colecta.
Após a ditadura regeneradora, Kionga, o convénio
definitivo, e, para ser em tudo rigoroso este paralelismo,
de novo o fanatismo congreganista irrompe com o caso Calmon.
Donde há-de vir a salvação? Como arcar
com a anarquia e vencê-la? Será a monarquia capaz
de o fazer? Como? Promovendo a reconstituição
liberal dos antigos partidos? Com quem? Com os seus actuais
chefes, os srs. José Luciano e Hintze Ribeiro? São
bem dignos disso, mas ambos já o tentaram e a experiência
está feita. O sr. Hintze Ribeiro organizou neste sentido
a situação liberal de 1893, a que, com Augusto
Fuschini, esse homem de bem e ilustre estadista, pertenceu
ele, orador. Todos sabem o que aconteceu. "Tivemos que
sair vencidos, rendendo-se o sr. Hintze Ribeiro às
forças reaccionárias que conspiravam contra
essa situação". O sr. José Luciano
tentou o movimento oposicionista contra a ditadura, associando
na oposição o partido republicano, como no governo
o acaba de associar em Itália o sr. Zanardelli; mas,
quando voltou dos comícios com as representações
populares, teve de dependurar por inútil a espada liberal,
esperando por melhor tempo. A oportunidade chegou um dia,
e ele briosamente apresentou às câmaras a sua
reforma de constituição num sentido liberal.
Mas, quando essa reforma estava para ser votada, caiu o ministério…
Se não é possível a reconstituição
liberal dos partidos pelos seus próprios chefes actuais,
sê-lo-á pelos seus caudilhos dissidentes –
pelo sr. João Franco no partido regenerador, quem sabe
se, amanhã no partido progressista, pelo sr. José
Maria de Alpoim, que, como o sr. João Franco, possui
notáveis qualidades e um grande poder de atracção
pessoal? A experiência está também feita.
Logo que o sr. João Franco a tentou, conjuraram-se
contra ele os antigos partidos numa guerra de extermínio,
como que parecendo obedecer a um mot d'ordre, porque
faz justiça aos srs. José Luciano e Hintze Ribeiro,
e quer crer que estes veteranos das lides parlamentares não
receassem, antes estimariam terçar armas e medir galhardias
com o chefe do novo partido.
Se não é possível a reconstituição
dos partidos, será possível a formação
liberal dum novo partido sob os auspícios da monarquia?
Quem o constituiria? Os nomes andam na boca de todos: o sr.
José Dias Ferreira, o sr. Visconde de Chanceleiros,
o sr. Dr. Costa Lobo, o sr. Augusto Fuschini, o sr. Anselmo
de Andrade, o sr. Augusto Castilho. Mas já viu alguém
que a monarquia procurasse rodear-se destes homens de incontestável
mérito? Foram sequer chamados às suas festas,
que são festas oficiais e não particulares?
Ainda outro dia, por ocasião da visita de Eduardo VII,
viu-se o sr. José Dias Ferreira, que fora presidente
do conselho de ministros, à mesa do rei de Inglaterra,
que deu assim nessa ocasião um exemplo que era ao mesmo
tempo uma lição de bom governo constitucional.
E, para não falar individualmente de mais ninguém,
basta perguntar que apoio deu a monarquia ao bravo militar
Augusto Castilho, quando ele era sujeito a um conselho de
guerra por ter honrado o nome português, cobrindo com
a nossa bandeira os vencidos das lutas civis do Brasil. Não
podem, pois, esses homens, não pode ninguém
contar que eles encontrem na monarquia o apoio necessário
para a organização eficaz dum novo partido.
Mas entenderá a monarquia que a salvação
não pode vir assim, que as classes dirigentes, a burguesia
está profundamente contaminada e que é preciso
governar por cima dela e contra ela? Foi esse o sonho de socialismo
de Estado de Oliveira Martins e talvez de militarismo democrático
de Mouzinho de Albuquerque. A monarquia teve-os ao seu lado.
Um não seria um estadista como Bismark, e o outro não
seria um estratégico como Moltke. Mas Oliveira Martins
podia bem ser o continuador de Mouzinho da Silveira e Mouzinho
de Albuquerque que era da raça dos Saldanhas e dos
Terceiras, para não dizer antes que era da raça
dos Mouzinhos. A monarquia aproveitou-os? Oliveira Martins
morria politicamente poucos meses depois de ser elevado a
ministro. Mouzinho de Albuquerque não chegou mesmo
aos conselhos da coroa, e, como se tivesse desesperado da
sua utilidade, suicidou-se. E a monarquia tinha para a realização
deste programa, além destes homens, a voz mais eloquente
dos nossos dias, António Cândido, o sucessor
de José Estevão, que saberia conquistar para
ele as simpatias das massas, e, para captar as simpatias internacionais,
um diplomata, o marquês de Soveral, que, pela sua gentileza
de maneiras e pelo encanto do seu espírito, é
bem do estofo dos Palmelas. Aproveitou-os? António
Cândido, como que desenganado, emudeceu. O marquês
de Soveral não pôde fazer mais do que converter
a opressão inglesa insolente de Salisbury no protectorado
delicado, cortês, quase afectuoso, de Eduardo VII.
E note-se que este programa de socialismo cesarista, que podia
talvez vingar, começado com Oliveira Martins e continuado
sob a impressão das gloriosas vitórias africanas,
já no tempo de Mouzinho de Albuquerque era tarde de
mais para se iniciar. Tomou parte nas ovações
que por esse país as multidões acorriam a fazer
ao herói de Chaimíte, que, quando lhe entoavam
vivas, respondia sempre com vivas a el-rei; e viu-o regressar
à capital, retirando-se as multidões do seu
caminho, quase despopularizado. Assim ele se sacrificara á
sua devoção monárquica. O que não
fez Mouzinho, não pode decerto ousar ninguém
mais.
Hoje as massas ainda se apartam mais da monarquia, porque,
como tudo se concentrou no poder real, todas as responsabilidades,
com fundamento ou sem ele, lhe imputam: o protectorado inglês
é para salvaguarda da monarquia; a ruína financeira
do país é a confusão dos dois erários;
e até o jesuitismo, se não se imputa ao rei,
imputa-se ao paço.
Não e lícito, pois, esperar a salvação
dentro da monarquia. Não é possível.
Por maior que seja a cultura do chefe de Estado, por maior
que seja o seu brio e coragem, o empreendimento não
é para as forças de nenhum indivíduo
só! Só lhe pode meter ombros a massa inteira
da nação, o seu valoroso povo, as suas classes
trabalhadoras.
Há quem objecte que a monarquia está identificada
com a independência da pátria. Como se, sem ela,
a nação não pudesse viver! Não.
A nação foi de facto sempre monárquica;
mas, infelizmente, a monarquia foi a monarquia usurpadora
dos Filipes, foi o governo napoleónico de Junot e foi
o governo de Beresford sob Jorge IV. Não. Efectivamente
a monarquia tem um lugar soberano no começo da nossa
história, mas gradualmente quem a vai tomando cada
vez mais para si é o povo.
E as nossas alianças? Sem as discutir por agora, limitar-se-á
a apontar a aliança entre a França republicana
e a Rússia absolutista, o tratado de arbitragem celebrado
ultimamente entre a própria Inglaterra, nossa aliada,
e a França republicana. Não. O tempo da santa
aliança passou e hoje já não são
dos reis as alianças, mas dos povos.
O que é indispensável, é organizar as
forças vivas da nação portuguesa. Organize-as
o partido republicano e a nação salvar-se-á.
É preciso que o partido republicano, continuando a
ser um partido de oposição, faça mais
do que o ataque, do que a demolição, que já
está feita. Transforme-se num partido de governo. Se
não puder tentar a eleição parlamentar,
faça por vingar a municipal; se nem no governo do município
pode intervir, faça por intervir no da paróquia.
Não deixe ao abandono nenhum posto, por mínimo
que seja, que possa ocupar. Faça sobretudo por amparar
todas as justas reivindicações dos pobres, dos
humildes. Seja um partido republicano profundamente socialista.
Quando os republicanos, por toda esta sua campanha, se mostrarem
homens de governo, tenham como certo que a república
estará feita em Portugal, como se fez no Brasil, como
aconteceu na França em 1871, onde a assembleia legislativa,
com uma maioria de monárquicos, elegia para seu presidente
o republicano Grévy e para chefe do estado um monárquico
convertido à república, Thiers.
E até esse momento, se a monarquia não é
impenitente, o partido republicano, embora isto pareça
um paradoxo, ter-lhe-á acordado os sentimentos liberais,
satisfazendo assim as esperanças de tantos homens de
bem que ainda confiam nos serviços dela ao pais, e
contribuindo para que ela, tendo-se convertido à liberdade,
ao soar a hora de desaparecer, morra com honra e dignidade.
Bernardino Machado |
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